quinta-feira, 24 de março de 2011

Décimo Primeiro Ato: Nada sei




Repetidas vezes atemo-nos a sentir o mundo somente com os olhos. Lamento profundamente por este mal que às vezes a mim também aflige. O que vemos é apenas uma ínfima parte da experiência de viver. Sei que se tentássemos absorver todos os estímulos presentes ao nosso redor, ninguém vivo ainda estaria, pois frágeis somos para com a vida - carregar um pouco de morte dentro de si é necessário. Entretanto, sou a favor de uma maior atenção aos outros sentidos.

É fascinante como uma nova realidade descortina-se ao fechar dos olhos. Facetas antes encobertas surgem do que familiar era. Somos contagiados pela vivacidade e dinâmica que a música adquire, percebemos a textura existente em cada pedaço de chão e nos sentimos aterrorizados por termos perdido nossa bússola, a visão.

Essa sensação de desorientação talvez hoje seja assaz mais intensa do que era no passado. Muito fala-se do excesso de informação que uma pessoa recebe no mundo globalizado, mas e o excesso de estímulos? O mundo capitalista necessita de estímulos. Nossa rotina é sermos bombardeados por sons, cheiros, propagandas, pessoas e compromissos. Formamos casulos e deixamos de perceber o novo que está escondido no caos diário para suportar esta sobrecarga, porquanto a tecnologia possibilita e, principalmente, incentiva.

Fones de ouvido tornaram-se inseparáveis para a todo momento ouvirmos nossos sons preferidos. Sair de casa sem celular é um crime, afinal, o que faríamos sem conectados estarmos com nossos contatos. Perguntar a pessoas é desinteressante, o Google tudo sabe. Sair para conversar sem sentido é, temos redes sociais, mensagens instantâneas e e-mails.Estudamos sobre o mundo enclausurados em uma sala. Aprendemos como é a Mata Atlântica por fotos em apresentações. A busca por um vasto conhecimento é realizada em um pequeno ambiente controlado.

Um dia, enquanto andava de metrô, percebi que todas as pessoas a minha frente - cerca de seis - estavam com fones de ouvidos e olhando para os celulares. Mesmo em um ambiente fechado, preferimos nos fechar ainda mais para o que existe além de nós. Nossa visão do mundo é limitada pela nossa própria vontade de acomodar-se.

É possível notar o quanto este estilo de vida - além de outros fatores - está modificando as manifestações culturais. O rap e a música eletrônica usurpam descaradamente músicas já feitas. O rock cada vez menos experimental e rebelde é. A música erudita busca novos caminhos para conseguir lidar com o caos. As artes visuais prezam a estilização. O desenho de produtos foca o minimalismo e o descartável. Exemplos existem em abundância.

Com tantas distrações, como ouvir o som que talvez mais importa, o que está dentro de nós? Ele não possui amplificação e, se não bastasse os estímulos externos, é abafado por uma multidão de pensamentos.

Uso uma técnica para com mais clareza ouvir o que dentro de mim há. Fecho os olhos. A primeira coisa que no escuro surgir, penso que minha prioridade seja. Pode ser uma ação, um objeto ou uma pessoa. Nunca deixo de ser surpreendido pelo resultado. O completo desconhecimento acerca de quem sou é aterrador. Neste momento versos de Fernando Pessoa em minha cabeça ressoam: "Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?"

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Décimo Ato: Declaração de Saliva

Somos tão assimétricos e, ainda assim, tão ligados. És igual a mim e a todos. Difícil de acreditar já que nem dentro de si tu consegues ser o mesmo - seu lado esquerdo é diferente de seu direito - mas confie. Compartilhamos o querer de ter feito a diferença em algo ou alguém. Sentimos isso juntos.

Receber uma declaração é saber explicitamente que algo mudou por ti. És poderoso não? Muitas vezes elas são exageradas. Poucas são sinceras. De fato, já recebi algumas e fiz não menos. Não acreditei em todas, mas adorei as ter recebido. Não correspondi em boa parte e também não fui muitas vezes correspondido. Tenho uma em favorito, banhada à sangue, lágrimas e inocência infantil. Meu irmão a fez.

"Zé, saiba que eu te amo." Simples. E incomum... não recordo de tê-lo ouvido pronunciar algo assim para mim vez alguma, antes ou depois. Ele agia mais do que falava. O que a faz de tão especial era a sua sinceridade. Vontade de realmente dizer, sentir de fato. Seu nariz sangrando tornava-a ainda mais impactante.

Ele estava brigando com minha irmã. Mãe querendo aparar, o atingiu no nariz. Ele me chamou e depois fugiu de casa. Não compreendo porquanto declarou-se. Ele já devia saber que a briga não daria em nada e não era de seu feitio assumir. Eu entretanto, naquele momento, achei que jamais ia voltar a vê-lo. Estava cerca de um ano adiantado.

Tantas pessoas estiveram presentes no funeral. Família, bombeiros, estudantes, trabalhadores, vagabundos, até minha professora lá estava, portada de óculos escuros. Bebi uma Coca Cola - Coca Cola, sempre nos momentos mais importantes da sua vida - e assistia aos rostos enrugados pela dor, enquanto mascarava a minha. A hora do encontro com o corpo (simplesmente só o corpo, será que apenas eu enxergo tal absurdo?) é sádica. Não é uma despedida. Não mesmo.

Minha mãe é emocional. Ela transborda vida e emoção. Quando está alegre, está muito alegre e vice-versa. Jamais entretanto presenciei ela tão triste quanto naquele momento. Seus gritos, ah, apenas quem teve sua alma dilacerada poderia gritar. Ela perdeu uma parte dela subitamente. Talvez por instinto, ela se agarrava ao corpo dele como se quisesse guardá-lo dentro de si... novamente. Suas lágrimas se misturavam à saliva expurgada por seus gritos.

Em algum de meus desvaneios já tive o pensamento de sermos como saliva. Não termos sido criados porque uma entidade superior assim quis. Existirmos apenas porque somos necessários e como saliva, um pouco sai e o resto continua dentro, até ser renovado. Não há a seleção de quem vai morrer e como vai. Pensar que existo para ser uma saliva evoluída não é reconfortante.

Quero mais. Eu sinto que sou mais. Sou artista buscando ir além, ser criador. A ironia da arte, e também seu charme, é ser a imortalidade de seu mortal autor. Por assim ser, a amo desesperadamente, assim como a vida.

Ela é assaz incerta, gastá-la em tristes pensamentos e momentos, sem usufruir dos milagres que a acompanham, é ignorância. Nascer para agir como lixo é tão inaceitável como nascer para ser lixo.

Somos tão assimétricos e, ainda assim, tão ligados. Todas as diferenças me enlouquecem ao passo que me fascinam. Os egoísmos, as excentricidades, os pensamentos. Os dias de sol, os dias de chuva. As florestas, as cidades. Diversidade que faz a vida não ser a esteira de uma linha de produção. Essa é a declaração que essa nada humilde saliva faz a ti, vida e tudo o que você representa.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Nono Ato: Faça chuva, faça sol...

O tempo está imprevisível. Ontem, por exemplo, acordei devido à claridade de um forte sol em um céu sem nuvens. Saí para almoçar e durante o percurso, a chuva apareceu. Findo almoço, saí em uma quente rua, sem sinal de chuva. Em casa, o sol continuou. Deixei entretanto o conforto de um apartamento e, novamente, desprevinido fiquei perante um dilúvio. Um ônibus passou, restou-me entrar nele. A chuva seguiu. No fim de um túnel, milagrosamente o sol apareceu e o termômetro marcou trinta e cinco graus. Difícil se programar em dias assim.

Nesse intervalo, o tempo mudou, mas algo permaneceu imutável, quiçá ainda mais destacável, visto o vazio nas ruas. Os jovens, os velhos, os bebês. Todos na rua, sem lugar algum para estar se não no chão. Quente estava, imagino o ardente asfalto em seus pobres corpos, já maculados pela fome. Depois resistiam ainda ao choque térmico proveniente dos frios gotejos de uma rápida e forte chuva. Prisioneiros de uma guerra fria entre as classes.

Pergunto-me qual o motivo da prefeitura ter um grande estacionamento particular que jamais vi ter metade de sua área preenchida. Para não falar da capela presente e isso para não entrar nos pormenores dos feriados católicos que são oficializados em nosso calendário. Pois sim, aparentemente apenas na constituição somos um Estado laico. Tanto espaço desperdiçado com futilidades.

Engraçado como sou parcial. Faço parte da classe média que nunca reclama de seus próprios atos, sempre aponta falhas alheias. Nesse caso, do Estado. Podia reclamar de meu prédio possuir um largo play que sequer é utilizado por ser composto apenas de concreto e mais concreto. Mas não o fiz. Questionei o Estado e sua relaçao para com a Igreja. Não existe imparcialidade.

E, de fato, provavelmente sequer farei algo para mudanças ocorrerem - as famosas "changes" de obama-, apenas continuarei seguindo minha vida, cumprindo as leis. O que não deixa de ser um ato significativo para uma melhora pois poderia muito bem estar tentando erguer um castelo de 36 suítes.

Não escrevi para exibir as injustiças das ruas. Elas não são teatros que necessitem de alguém para abrir suas cortinas. Nem para fabricar filantrópicos que saiam doando por aí. Escrevi porque talvez tenha ocorrido um problema em minha concepção. Nasci com um defeito. Onde supostamente estariam olhos meus, encontram-se bocas. Com elas absorvo tudo o que observo. O sabor nem sempre é agradável e permanece em minha memória. Fica dias. Às vezes preciso expurgar. Por isso esse texto.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Oitavo Ato: Você está me ouvindo?

Palavras são traiçoeiras. Para surgirem e inundarem nossos pensamentos, um pequeno acicate é o suficiente . Quantas vezes não nos arrependemos de falas proferidas? Desejamos repetir o momento, trocar letra por letra o discurso.

No luto pelo que foi dito, chegamos a pensar em como teria sido melhor nada dizer. Pura consolação pois conquanto dizer tenha sido ruim, não falar ainda mais doloroso seria. As palavras que mais incomodam não são aquelas soltas no ar, livres, mas sim as presas na garganta, almejando liberdade.

Possuímos a necessidade de nos expressarmos, ilustrarmos nosso ponto de vista ao mundo. Seja via conversas, textos, imagens, músicas, esculturas ou qualquer instrumento existente. Não nos arrependemos própriamente das palavras ditas, pois estas eram nossos sentimentos expressos em línguagem acessível ao próximo. Nosso incômodo então reside-se no resultado obtido. Uma reação favorável por parte do intelocutor não viria a gerar peso na consciência.

As palavras permanecem em nosso íntimo quando deixamos de exprimir o que sentimos e permanecemos tácitos quanto ao que desejamos, ocasionando em dois prováveis resultados. O primeiro é as palavras acossarem ao passo que desvanecem e ao desaparecerem, deixarem veneno em nossos pensamentos, podendo gerar efeitos colaterais. O segundo é a libertação delas de forma descoordenada em um momento não apropriado.

São os únicos quadros possíveis? Não, existem outros desfechos, mas esses são os mais utilizados. Em ambos, o resultado não agrada e o incômodo persiste por ainda mais tempo do que os das palavras ditas. Concluí-se então de que devemos sempre dizer o que queremos, certo?

Certo, mas ainda assim não é o adequado. Nosso desejos devem ser levados em conta e serem reinvidicados, mas existem maneiras e maneiras. O que foi levantado previamente estava apenas olhando um lado da situação, o nosso. Expressar é uma ação que comumente envolve interlocutores e uma busca para alcançar um objetivo. Exclamar que a expressão não possui interesses é utopia.

Atingir uma meta visa convencer o outro. Para isso discursos persuasivos precisam ser utilizados (considerando que você não conheça telepatia :P). Logo, palavras não ditas devem ser evitadas. Despejar entretanto não é o recomendado, visto que elas podem estar sendo movidas por fortes sentimentos momentâneos e nada em demasia ou instável é ideal. Ser verdadeiro é bom, ser assaz verdadeiro não; um pouco de mistério atiça o alvo.

Não entenda isso como uma mensagem "seja frio e calculista". Entenda como é importante não desperdiçar as palavras que possui. Use-as bem e mesmo que tarde, o que não foi dito ainda pode vir a ser e o já falado pode-se tentar remediar. Não existe arma mais profunda que a palavra. Não foi o tiro fatal em Martin Luther King Jr. que é lembrado, mas sim o "Eu tenho um sonho."

domingo, 11 de janeiro de 2009

Sétimo Ato: Lembro-me de você!

Lembranças são curiosas. Imortalizamos algumas sequer entendendo seus brilhos, o que as fazem tão especiais. Alocamos os momentos mais importantes de nossas vidas contíguos aos acontecimentos ordinariamente cotidianos.

Interessante como o recordar funciona. Enquanto em filmes as personagens têm longos flashbacks, recheados de filtros coloridos, comigo ocorre pequenos flashes, quase como um recorte. Sim, está mais para um recorte. Esqueço os detalhes de toda a cena e tudo o que resta é o fato, a ação que selecionei para carregar por toda a vida entre as milhões que vivenciei e virei a vivenciar.

Apesar de serem recortes, admito que todas elas têm um pouco de Capitu (sequer consegui assistir um episódio inteiro de tão ruim que achei, mas admito que certas cenas são espetaculares e somente elas já seriam suficientes para justificar as ótimas críticas que recebeu), isso é, a magia presente em cada uma e serem completamente parciais. Por mais que jurem, não consigo acreditar em testemunho imparcial. Uma cena possui dezenas de pontos de vista diferentes, cada um podendo ou não possuir um significado exclusivo. Um gesto, uma entonação, uma visão parcial, tudo influencia e provoca diferentes sensações que também são reproduzidas nas memórias.

Sabemos de nossa existência pelas memórias de pessoas que tiveram contato conosco. "Penso, logo existo." Lembram, logo existi. O grande problema é quando somos apenas lembranças acompanhadas de um sorriso no rosto. É difícil recomeçar uma amizade depois de tanto tempo longe. Kant dizia: "A amizade é semelhante a um bom café, uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primitivo sabor." Ainda assim entretanto, busco degustar na esperança de com o tempo apreciar esse novo flavor.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sexto Ato: O Velho e o Apartamento

O apartamento não é de grande extensão, mas vive-se confortavelmente. Os cômodos são ligados por um estreito corredor e no lado oposto ao quarto em que estou, encontra-se a sala. Ela ocupa maior parte do imóvel. Meus almoços e minhas jantas são lá, em uma mesa de madeira, com quatro grandes cadeiras, sem nenhum acolchoado. Meus olhos fitam na janela o prédio vizinho enquanto ceio. Ele encontra-se muito próximo, quase como uma continuação da construção, um prédio gêmeo diria eu. E lá, também existe uma janela gêmea à minha.

Nessa janela, encontra-se um velho. Como uma presa se escondendo de seu predador, ele permanece imóvel por horas, com esporádicos movimentos de seus fios de cabelo ou tiques nervosos. Sua cabeça está sempre abaixada. Jamais pude contemplar seus olhos. Sempre alguém está ao seu lado, mas nem sempre é a mesma pessoa. Dia é uma senhora (acredito que seja sua esposa ou irmã) que sempre está a assistir tv, outro é uma negra, rechonchuda e de aparência jovial, provavelmente uma enfermeira já que nada assemelha-se com o idoso e é nova demais para uma amiga.

O lugar é tão mal iluminado quanto o meu, conquanto acredite eu ser proposital, buscando não lesar a vista do senhor. Possui poucos móveis na sala, apenas um sofá, uma mesinha onde encontra-se a tv e praticamente só. O que realmente me interessa no local entretanto é uma pequena escultura de Cristo crucificado localizada acima da cadeira que o velho repousa. Tanto Jesus quanto o enfermo encontram-se imóveis, com a cabeça abaixada. Não sei se é minha veia artística, mas essa simples semelhança parece-me tão profunda e correlacionada que chega a me cativar, como poesia (apesar de considerar a maioria intragável, algumas são espetaculares).

Tenho a sensação do tempo estar parado naquele lar pois tudo é estático. A unica mudança que ocorre é a luz que incide na senhora quando assiste sua novela. Dado momento é fraca, logo aumenta, e nesse jogo de claro-escuro, a velha permanece. É como observar um quadro de um grande gênio. A lâmpada fraca, Jesus e o velho, a velha e a luz. Cada detalhe é bem aproveitado para emocionar à quem olha.

Faz o quê? Uns 5 anos desde que me mudei? Não sei ao certo, mas lembro claramento que desde o primeiro momento, lá jazia o velho em seu trono. Eu cresci, vivenciei momentos, experimentei novas emoções e nada mudou naquele apartamento. Como um fantasma da guarda, lá ainda está ele, avisando-me do quanto devo aproveitar o tempo em que posso construir com meus próprios braços e visitar com minhas próprias pernas. E como mau aluno que sou, sempre contrariando o professor, não absorvi toda a lição. Infelizmente todo o mundo também ainda não aprendeu, alguns por falta de tal mestre, continuam a desperdiçar o tempo com preocupações e conflitos tolos. Logo será ano novo e quem sabe a aula não termina? O mundo precisa de paz.

p.s.: o nome desse ato é inspirado no livro "O Velho e o Mar". Falando a verdade, nunca cheguei a lê-lo, mas ouvi a ótima música "The Old Man and The Sea" do grupo Anekdoten, baseada no livro. Um dia pretendo ler. Quando terminar os quatro livros que estou lendo no momento, quem sabe hehe...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Quinto Ato: Memória transcrita

Pi Pi Pi... Esse é o som que ecoa em meus pensamentos quando penso no tempo. Realidade diferente da de meus avós, onde pessoas escutavam somente Tic-Tacs. Era a época do analógico, a minha é do 0 e 1. Meu tempo é uma fila de Pi Pi Pis seguidos, alarmes de atraso. Conquanto hoje assim seja, possuo ainda memórias de dias diferentes, quando meu tempo era medido por presentes recebidos e o quanto faltava para ganhar outros. Memórias essas que constituem meu passado, afinal, já dito por Alceu Amoroso Lima: "O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou". Compartilhar-lhe-ei uma delas, datada de 10 anos:

Perguntados acerca do ano de 1998, cariocas de certo acudiriam: Ano de Copa! Pois bem sim era época de Copa do Mundo de Futebol. As cidades estavam coloridas de verde-amarelo. Buzinas eram entoadas em um crescendo como uma orquestra anunciando o clímax da obra. Crianças reproduziam seus ídolos imitando seus penteados, suas comemorações e seus sotaques. Longos dias e noites haviam se passado desde a heróica conquista do tetracampeonato e o povo mal suportava a espera.

Eu estava entre meus seis ou sete anos - perdoai-me pela imprecisão - e residia no lar de meus avós paternos, donde pouco mantia contato com o restante da família, exceto aos finais de semana, quando meu pai vinha me buscar e íamos rumo nossa casa, distante da capital. Nesses sábados e domingos, meu irmão e eu jogávamos futebol. Melhor dizendo, meu irmão humilhava-me em um jogo jogado com os pés. Não pense entretanto, que era um desprazer, pois de fato, era deveras divertido e engraçado ser humilhado nessas brincadeiras.

Meu irmão já havia passado por dez carnavais quando nasci. Tínhamos pouco em comum. Ele era moreno e alto. Eu branquinho e pequeno. Perfilho a tese de que toda a habilidade familiar no futebol fora monopolizada por ele. Com a Copa chegando, a seleção brasileira tinha nós dois de atacantes, em nossos sonhos como atletas convocados, . Romário e Bebeto eram o passado, éramos o presente. Pobres oponentes, um a um caíram perante o poderio brasileiro e uma vez mais, o Brasil alcançara o topo. Em nossas ilusões apenas, pois acredito que vóis sabeis o fatídico resultado.

Essa foi a última Copa em que estivemos juntos. Mal sabia eu de que ele viria a falecer mais tarde. A morte era para mim, como Papai Noel, algo apenas lido em histórias. Agora não mais formamos uma dupla de ataque, sou apenas um atacante cercado de zagueiros. Sou de fato um melhor atacante, consigo marcar meus gols sem sua companhia pois dependo deles para sobreviver, mas isso não atenua o pesar. Sequer recordo dos jogos assistidos ou dos gols comemorados na Copa daquele ano. Em minha memória apenas repousa uma partida de 1998. Uma jogada sem tanta pompa, em um gramado esburacado, com forte sol e céu azul límpido. O Brasil era dois. Eu e ele. Meu uniforme não era o tradicional verde-amarelo, mas sim uma sunga azul. Ele usava uma bermuda preta sem camisa. Não parecíamos ser do mesmo time, entretanto era apenas impressão. O resultado? Brasil 2 x 0 Resto do mundo.