sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sexto Ato: O Velho e o Apartamento

O apartamento não é de grande extensão, mas vive-se confortavelmente. Os cômodos são ligados por um estreito corredor e no lado oposto ao quarto em que estou, encontra-se a sala. Ela ocupa maior parte do imóvel. Meus almoços e minhas jantas são lá, em uma mesa de madeira, com quatro grandes cadeiras, sem nenhum acolchoado. Meus olhos fitam na janela o prédio vizinho enquanto ceio. Ele encontra-se muito próximo, quase como uma continuação da construção, um prédio gêmeo diria eu. E lá, também existe uma janela gêmea à minha.

Nessa janela, encontra-se um velho. Como uma presa se escondendo de seu predador, ele permanece imóvel por horas, com esporádicos movimentos de seus fios de cabelo ou tiques nervosos. Sua cabeça está sempre abaixada. Jamais pude contemplar seus olhos. Sempre alguém está ao seu lado, mas nem sempre é a mesma pessoa. Dia é uma senhora (acredito que seja sua esposa ou irmã) que sempre está a assistir tv, outro é uma negra, rechonchuda e de aparência jovial, provavelmente uma enfermeira já que nada assemelha-se com o idoso e é nova demais para uma amiga.

O lugar é tão mal iluminado quanto o meu, conquanto acredite eu ser proposital, buscando não lesar a vista do senhor. Possui poucos móveis na sala, apenas um sofá, uma mesinha onde encontra-se a tv e praticamente só. O que realmente me interessa no local entretanto é uma pequena escultura de Cristo crucificado localizada acima da cadeira que o velho repousa. Tanto Jesus quanto o enfermo encontram-se imóveis, com a cabeça abaixada. Não sei se é minha veia artística, mas essa simples semelhança parece-me tão profunda e correlacionada que chega a me cativar, como poesia (apesar de considerar a maioria intragável, algumas são espetaculares).

Tenho a sensação do tempo estar parado naquele lar pois tudo é estático. A unica mudança que ocorre é a luz que incide na senhora quando assiste sua novela. Dado momento é fraca, logo aumenta, e nesse jogo de claro-escuro, a velha permanece. É como observar um quadro de um grande gênio. A lâmpada fraca, Jesus e o velho, a velha e a luz. Cada detalhe é bem aproveitado para emocionar à quem olha.

Faz o quê? Uns 5 anos desde que me mudei? Não sei ao certo, mas lembro claramento que desde o primeiro momento, lá jazia o velho em seu trono. Eu cresci, vivenciei momentos, experimentei novas emoções e nada mudou naquele apartamento. Como um fantasma da guarda, lá ainda está ele, avisando-me do quanto devo aproveitar o tempo em que posso construir com meus próprios braços e visitar com minhas próprias pernas. E como mau aluno que sou, sempre contrariando o professor, não absorvi toda a lição. Infelizmente todo o mundo também ainda não aprendeu, alguns por falta de tal mestre, continuam a desperdiçar o tempo com preocupações e conflitos tolos. Logo será ano novo e quem sabe a aula não termina? O mundo precisa de paz.

p.s.: o nome desse ato é inspirado no livro "O Velho e o Mar". Falando a verdade, nunca cheguei a lê-lo, mas ouvi a ótima música "The Old Man and The Sea" do grupo Anekdoten, baseada no livro. Um dia pretendo ler. Quando terminar os quatro livros que estou lendo no momento, quem sabe hehe...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Quinto Ato: Memória transcrita

Pi Pi Pi... Esse é o som que ecoa em meus pensamentos quando penso no tempo. Realidade diferente da de meus avós, onde pessoas escutavam somente Tic-Tacs. Era a época do analógico, a minha é do 0 e 1. Meu tempo é uma fila de Pi Pi Pis seguidos, alarmes de atraso. Conquanto hoje assim seja, possuo ainda memórias de dias diferentes, quando meu tempo era medido por presentes recebidos e o quanto faltava para ganhar outros. Memórias essas que constituem meu passado, afinal, já dito por Alceu Amoroso Lima: "O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou". Compartilhar-lhe-ei uma delas, datada de 10 anos:

Perguntados acerca do ano de 1998, cariocas de certo acudiriam: Ano de Copa! Pois bem sim era época de Copa do Mundo de Futebol. As cidades estavam coloridas de verde-amarelo. Buzinas eram entoadas em um crescendo como uma orquestra anunciando o clímax da obra. Crianças reproduziam seus ídolos imitando seus penteados, suas comemorações e seus sotaques. Longos dias e noites haviam se passado desde a heróica conquista do tetracampeonato e o povo mal suportava a espera.

Eu estava entre meus seis ou sete anos - perdoai-me pela imprecisão - e residia no lar de meus avós paternos, donde pouco mantia contato com o restante da família, exceto aos finais de semana, quando meu pai vinha me buscar e íamos rumo nossa casa, distante da capital. Nesses sábados e domingos, meu irmão e eu jogávamos futebol. Melhor dizendo, meu irmão humilhava-me em um jogo jogado com os pés. Não pense entretanto, que era um desprazer, pois de fato, era deveras divertido e engraçado ser humilhado nessas brincadeiras.

Meu irmão já havia passado por dez carnavais quando nasci. Tínhamos pouco em comum. Ele era moreno e alto. Eu branquinho e pequeno. Perfilho a tese de que toda a habilidade familiar no futebol fora monopolizada por ele. Com a Copa chegando, a seleção brasileira tinha nós dois de atacantes, em nossos sonhos como atletas convocados, . Romário e Bebeto eram o passado, éramos o presente. Pobres oponentes, um a um caíram perante o poderio brasileiro e uma vez mais, o Brasil alcançara o topo. Em nossas ilusões apenas, pois acredito que vóis sabeis o fatídico resultado.

Essa foi a última Copa em que estivemos juntos. Mal sabia eu de que ele viria a falecer mais tarde. A morte era para mim, como Papai Noel, algo apenas lido em histórias. Agora não mais formamos uma dupla de ataque, sou apenas um atacante cercado de zagueiros. Sou de fato um melhor atacante, consigo marcar meus gols sem sua companhia pois dependo deles para sobreviver, mas isso não atenua o pesar. Sequer recordo dos jogos assistidos ou dos gols comemorados na Copa daquele ano. Em minha memória apenas repousa uma partida de 1998. Uma jogada sem tanta pompa, em um gramado esburacado, com forte sol e céu azul límpido. O Brasil era dois. Eu e ele. Meu uniforme não era o tradicional verde-amarelo, mas sim uma sunga azul. Ele usava uma bermuda preta sem camisa. Não parecíamos ser do mesmo time, entretanto era apenas impressão. O resultado? Brasil 2 x 0 Resto do mundo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Quarto Ato: O Início

O início. A folha em branco. Tanto a fazer, tantas possibilidades e ainda assim pouco efetivamente consegue ser passado. O lado psicológico é realmente complexo. Como é fácil começar o que pouco dou valor, mas tão dificil quando significa algo mais. A facilidade que tenho para fazer um trabalho idiota no colégio, conversar com uma completa estranha por quem nada sinto ou fazer um topo idiota para um blog que quase não possui audiência, não aparece quando tento começar a falar com uma garota a quem nutro sentimentos ou quando busco realizar meus sonhos e idéias.

Três anos sem me dedicar sériamente em algo me fez nutrir uma certa cobrança inconscientemente (agora consciente) sobre mim mesmo acerca de um projeto sério. A dificuldade não é criar, mas sim executar. É conveniente viver apenas de idéias. A vida real exige dedicação, treino, sacríficio... Pensamentos requerem apenas uma mente inquieta e seus resultados são imediatos.

Mesmo sem treinar, quando envolve arte, eu costumo adquirir uma melhora em técnicas apenas pelo simples fato de ter pensado sobre e observado os outros. Acredito que posso chamar isso de maturidade adquirida. Entretanto, por mais que tenha melhorado sem esforço, sei que não será o suficiente para corresponder minhas expectativas. Em meu íntimo, minhas obras são tecnicamente como se Da Vinci em pessoa chegasse a ter pintado então obviamente irei ficar decepcionado comigo mesmo.

Algumas pessoas não suportam a frustação e desistem. Sei que não sou assim, provavelmente irei trabalhar para conseguir. A questão é de que mesmo sabendo isso, nada facilita o fato de aceitar a frustação. De começar algo que você sabe exigir tempo e esforço. Para que deixar o conforto e fazer sua auto-confiança ser acossada? Ainda mais por algo incerto.

O novo assusta. Como afirma a primeira lei de Newton, sem a ação de forças externas, um corpo tende a se manter no estado em que se encontra. É uma das leis que regem o universo se você não estiver próximo da velocidade da luz, pois ai entraria a relatividade. Você deve estar pensando o que Física tem haver com o assunto. Na verdade não muito, mas o enunciado dela é interessante pois pense bem, o natural é a tendência de continuar no estado anterior e para mudar, seria necessária a aplicação de uma força, consequentemente um gasto de energia, traduzido em esforço. Ao buscarmos sair de onde nos encontramos, de executar uma ação, estaríamos saindo da naturalidade.

O interessante é depois de aceito o repto e iniciado o processo, todos essas correntes parecem desaparecer e o foco é apenas em fazer o melhor. E terminado tudo, ao saber que você conseguiu superar suas próprias limitações, ao olhar o resultado de seu trabalho, mesmo não sendo como sempre sonhou, o orgulho irá inundar em seu seio e a vontade de realizar novos feitos virá a crescer.

Sabendo-se de antemão tudo isso, pergunto-me então por que demasiadas vezes o primeiro passo exige tantos conflitos mentais. Acredito em alguns motivos. As decepções já proporcionadas por pessoas fazem crer que se você própio vier a te decepcionar, a insatisfação pode vir a consumir todo seu amor pelo ato e sua auto-confiança lhe fazer desistir de algo que lhe é caro. Outro é a esperança. Ditado popular já dizia que esperança é a última que morre. Pois bem é verdade e sabemos disso. Manter a esperança é manter viva a boa sensação causada por sonhar algo, é manter vivo um futuro com final feliz. Cometer o ato significa perder o controle dos acontecimentos, de deixar as consequências te afetarem, acabar com a esperança. Por bem ou por mal. O último é o comodismo e a falta de necessidade andando juntos. Quando fazemos algo por nós, sem obrigações, não há aquele empurrão e motivação, então o comodismo por algo já pronto assume as rédeas.

Para finalizar o assunto, usarei duas citações anteriormente já ditas no blog, mas que combinam perfeitamente com o post (é possível medir a qualidade de um autor a partir do quanto este consegue dizer com palavras, Goethe e o roteirista de Anos Incríveis em poucas linhas conseguiram passar tanto).

"Toda uma corrente de acontecimentos brota da decisão, fazendo surgir a nosso favor toda a sorte de incidentes, encontros e assistência material que nenhum homem sonharia que viesse em sua direção. Qualquer coisa que possa fazer, ou sonhe que possa fazer, comece a fazê-la agora. A ousadia tem em si genialidade, força e magia."
Goethe nos fazendo raciocinar e enfrentar as algemas confeccionadas por nós mesmos.

"Todos nos arrependemos por coisas das quais desistimos. Algo de que sentimos falta. De que desistimos por sermos muito preguiçosos, ou por não conseguirmos nos sobressair, ou por termos medo.""
Kevin Arnold resumindo tudo dito nesse post

Esse post originalmente teria como tema Arte, mas ele seria acompanhado de uma imagem, imagem esta que estou relutando em fazer, pelos motivos acima citados :/ Por isso, resolvi postar sobre a dificuldade de se começar algo. Espero eu agora poder finalmente começar e o próximo post poder finalmente falar sobre algo tão mágico, a Arte.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Terceiro Ato: Apenas seja você mesmo!

Essa é uma curiosa expressão: "Seja você mesmo!". Quando se pede conselhos, é muito usual obtê-la como resposta. Admito que mesmo não compreendendo seu significado, já cheguei a usá-la quando procurado e também já a ouvi quando buscava ajuda. É dificil saber o que sou "eu"... Quero dizer, partindo do início, agora sou o mesmo do que cheguei a ser anteriormente? Pois "ser eu mesmo" em minha concepção implicaria na necessidade de se possuir uma personalidade fixa e imutável, o que como procuro provar abaixo, não concordo.

A sociedade é capaz de alterar o indivíduo. Pensamentos, idéias, preferências e porque não a conduta são alterados pela ação de viver em conjunto com outros. Os agentes que podem vir a influenciar são os acontecimentos marcantes, as trocas de idéias, etc.

Segundo Locke, ao nascer o homem seria como uma "Tábula Rasa", uma folha em branco que aos poucos viria a ser preenchida em contato com o mundo exterior. Por essa teoria pode-se entender então de que mantivendo um contato com a sociedade, a pessoa estaria propícia à mudanças. Há não ser que consideremos a idéia da folha em branco ser completamente preenchida e saturada em um dado momento, impossibilitando a absorção de novas idéias.

A existência dessa satura entretanto não viria a ocorrer pois a todo momento estamos reciclando nossos pensamentos - seguindo a metáfora do papel - apagando e escrevendo outros. Pode-se também incluir na argumentação a idéia de que se a personalidade atingisse um estágio em que fosse impráticavel alguma alteração, perderíamos parte de nossa capacidade de adaptação e consequentemente, de sobrevivência em situações adversas. Digamos que um senhor, com posses, possua uma personalidade egoísta. Perdendo sua fortuna por um desastre, esse comportamento egoísta talvez tivesse de ser atenuado ou até mesmo extinguido para sobreviver, pois imaginemos que um determinado grupo de indivíduos nesse caso possuam alimentos, mas compartilhem apenas com pessoas de dentro e a lei vingente é compartilhar com todos o que tiver (podemos considerar esse grupo como uma sociedade então pois teriam leis a serem cumpridas e uma organização imposta). O senhor, faminto, aceitaria de certo e assim viveria uma vida não egoista, talvez ainda com desejos, mas incapaz de agir como antes do desestre.

Essa história cria a possibilidade de argumentar que os comportamentos podem ser mudados, mas não a personalidade, que manteria-se no desejo. Entretando ao mudar nossos modos por um período tão longo, o que viria a definir a personalidade então? Os desejos que viríamos a ter? O que seria então a real personalidade? Partindo do pressuposto que todos em algum momento já possuíram o desejo de realizar um ato obscuro, desejo perfeitamente humano, então o tal ato obscuro que todos possuíram seria a nossa personalidade se essa argumentação viesse a ser verdadeira, fazendo assim me levar a crer que ela é imprecisa.

Thomas Hobbes dizia que a sociedade era necessária para garantir a liberdade, pois sem suas leis, os homens viveriam em constante guerra. Ele usou essa teoria para defender o absolutismo, mas ainda assim ela é válida ao meu ver para qualquer tipo de Estado unificado, não importando a organização política. Na história contada, o grupo serviria como a sociedade para evitar que o homem cedesse aos seus desejos obscuros ou, caso contrariando meu ponto de vista, sua real personalidade.

Curiosamente eu concordo tanto com Hobbes quanto Locke nesses dois pontos em que destaquei (não pense que eu concordo com tudo dito em suas obras) o que pode ser visto como um aparente paradoxo. Acreditando que os homens sem a sociedade digladiariam entre si e ao mesmo tempo dizendo que sem contato com outro, o indivíduo seria uma folha em branco, então por que sem um contato em sociedade, eles haveriam de se confrontar?

Para essa pergunta, penso eu que deve-se considerar apenas o superego (parte do inconsciente que Freud atribuiu aos pensamentos morais e éticos) do indivíduo recém-nascido como uma tábula rasa. Ao nascer, acredito que o ID - parte relacionada ao desejo sexual e a luta pela sobrevivência, resumindo, nosso instinto - diferentemente do superego, não seria uma folha em branco. A sociedade viria então a atenuar o ID "preenchendo" o superego ou podendo ocorrer o inverso, aumentando a influência do ID.

Outro motivo pelo qual não consigo entender o "ser você mesmo" é o fato de existir mudanças súbitas de humor ou preferências. Certos dias eu adoro jogar ping-pong, em outros não dou a menor atenção. Supondo que eu venha a ser uma pessoa bem-humorada, mas ao acordar ou por determinada situação (seguindo o conceito anteriormente dito da sociedade influenciar o indivíduo), esteja de mau humor. Ser eu mesmo então implicaria a agir como usualmente sou, uma pessoa bem humorada, ou agir naturalmente, nesse caso, mal humorado? E não me venham com "é sempre bom ser bem humorado com as pessoas" pois este foi apenas um exemplo :P

Pode também ser motivo para eu não ter conseguido entender a expressão, o fato de ainda ser jovem. Isso claro, considerando um pensamento que contrarie o de Locke (se é pra refletir, que seja pensando todos os caminhos possíveis, incluindo os que não concordo). Se a personalidade é então realmente algo fixo e definido, o meu "eu" deve então ainda estar escondido e pelo pouco tempo que tive para entendê-lo, houve essa confusão.

Kevin Arnold, protagonista de um de meus seriados favoritos, Anos Incríveis, no final de um episódio disse uma das melhores definições que já ouvi sobre o significado de crescer: "Quando somos crianças, somos um pouco de cada coisa. Artista, cientista, atleta, erudito. Às vezes parece que crescer é desistir destas coisas, uma a uma. Todos nos arrependemos por coisas das quais desistimos. Algo de que sentimos falta. De que desistimos por sermos muito preguiçosos, ou por não conseguirmos nos sobressair, ou por termos medo." Simplesmente fenomenal.

Deve ser o fato de estar crescendo que me faz refletir sobre isso, sobre mim mesmo. A idéia de ter de começar a escolher a qual caminho vou trilhar em meu futuro. O fato de não estar certo de quem quero ser, ou mais difícil ainda de admitir, de quem realmente sou. Um dia sou tímido, outro ajo como sem-vergonha. Um dia só penso em besteiras, em outro só penso em assuntos sérios. Um dia gosto de companhia, outro busco ficar só. Um dia quis ser cineasta, já outro hacker. Personalidade é o conjunto de características psicológicas que distingue cada indivíduo. Pensar que nossa personalidade é imutável, de sermos quem somos pelo resto de nossas vidas é algo que me assusta e felizmente considero irracional, graças aos argumentos acima levantados. Ter um "eu mesmo" ocasionaria perder o sentido de sonhar em ser uma pessoa melhor a cada dia.

O intuito desse blog é gravar meus pensamentos para posteriormente, caso eu deseje, poder reavaliar ou lembrar do que havia esquecido. Estava com esse pensamento o dia todo na cabeça (e até mesmo por meses insconscientemente, pois esse foi um ano de decisões) e decidi então postar e refletir sobre isso. Não sou estudante de psicologia ou filosofia nem sei muito acerca do tema, mas tento na medida do possível, ler sobre. Talvez eu tenha falado grandes besteiras, então sinta-se livre para comentar, fazendo-me quem sabe re-avaliar as idéias.

Segundo Ato: Pizzas, Futuro e Timidez em Admirável Mundo Novo

Admirável mundo novo no blog não? Decidi deixar a preguiça de lado e tirar a poeira do Photoshop 7 (para você ver o quão desatualizado estou) e do 3D Studio Max para fazer um topo mais agradável aos olhos. Aproveitei e mudei pormenores do tema, nada por demais radical pois uma vez preguiçoso, sempre preguiçoso.

Admirável Mundo Novo... Curiosamente já me apropriei desse termo tantas vezes e nunca sequer cheguei a ler o livro. Não tenho muito interesse em livros cujo tema é o futuro. Engraçado que alguns de meus filmes favoritos são sobre o futuro. Influência dos efeitos especiais? Acredito que não pois alguns são antigos e a CG (computação gráfica) encontrava-se ainda como um recém-nascido, sem saber falar e andar (nesse caso, sem possuir a capacidade que hoje possuem de levar pessoas a gastarem dinheiro para verem roteiros furados e atuações questionáveis).

Livros do futuro podem nunca ter me interessado, mas quando tinha meus 13 anos, meu pai comprou-me o livro "Escuta Charlie Brown! Sobre o Privilégio de ser Tímido" pois eu era tímido e ainda sou, apesar de Goethe ter feito algumas mudanças nos rumos de minha vida com uma citação a cujo signifcado levo para todos os cantos e sempre reflito: ""Toda uma corrente de acontecimentos brota da decisão, fazendo surgir a nosso favor toda a sorte de incidentes, encontros e assistência material que nenhum homem sonharia que viesse em sua direção. Qualquer coisa que possa fazer, ou sonhe que possa fazer, comece a fazê-la agora. A ousadia tem em si genialidade, força e magia." Posso atestar de sua veracidade, poucas vezes li algo tão certo.

Sexta eu voltei a ler esse livro rapidamente pois estava sem eletricidade em casa e eu precisava esperar minha mãe, e em cerca de 1h já tinha lido suas 70 páginas. Essa obra do Sérgio Coelho tem um tom de conversa informal e leve, apesar de que na época outro presente provávelmente conquistaria mais de minha atenção :P. O final do livro possui 3 resumos de histórias de autores consagrados. Uma peça, um conto e...esqueci o outro huahua se não estou enganado, era um poema do Baudelaire que fazia uma metáfora entre a ave Albatroz e o poeta. O conto era de Isaac Asimov, outro escritor que nunca tinha lido uma página sequer. Chamava-se "A Profissão" e era ambientado em um universo futurístico. Dos 3, foi o que mais me agradou apesar de ser previsível, tive uma certa identificação e foi deveras interessante ler.

A essência da história era de que os humanos estavam espalhados por diversos mundos e existia uma Olímpiada entre profissionais e como prêmio, era possível obter um emprego em mundos melhores. As pessoas não mais precisavam de livros ou escolas (sorte a deles não ter de estudar biologia obrigatoriamente :P) já que em determinado dia, máquinas vasculhavam a pessoa em busca de identificar sua maior aptidão e depois, passavam todas as informações necessárias para exercer o ofício. O protagonista sonhava na ida para o melhor mundo, mas no dia da Escolha de profissão, as máquinas não conseguiram decidir e fiscais o levaram para um mundo que acreditava-se ser apenas para deficientes mentais. O final obviamente não contarei. Caso alguém tenha interesse, encontrei uma transcrição completa da obra disponível na internet em inglês no link: http://www.abelard.org/asimov.php

Mudando completamente de assunto, falemos de pizza! Pizza, deliciosa e gordurosa! Esforço ínutil tentar não amá-la! Por que diabos estou falando de algo assim? A explicação é simples como muitas tramas novelescas, o destino assim decidiu (na forma de uma sugestão aleatória :P). Não seria possível contar no dedo o punhado de obras em que as respostas para tudo é o destino. Conveniente não?

Apesar da fácil explicação, dificil encontrar palavras e algo a dizer. O jeito mais simples é iniciar alfinetando uma querida amiga anônima que pediu para não ser identificada :P. Em seu depoimento ela afirmou ser incapaz de passar uma semana sem comer ao menos uma vez pizza.
Para aumentar as provas acerca do poder de sedução "Pizzaiano", devo dizer que essa semana viciei-me em pizza. Em 3 dias seguidos, meu jantar foi rodízio de pizza. Nossa, como é bom ser esquelético :D

Eu não entendo como até hoje, com tantas sociedades anônimas (e viva a privacidade na época do Big Brother, o mundo definitivamente é irônico), ainda não houve alguém com a a brilhante idéia de fundar os "Viciados em Pizza anônimos". Definitivamente ia ser um sucesso, não concordam? Em questão de meses a Globo, atenta aos filões do mercado dos viciados e buscando em contrapartida adquirir uma imagem de emissora consciente, exibiria em horário nobre uma novela com uma personagem viciada em pizza que tentaria lutar contra tamanho vício. Provavelmente também teria um tsunami de produtos para largar o vício (coitado, o vício ia virar emo): adesivos anti-pizza, pastilhas com sabor de pizza, psicólogos especializados em problemas pizzícos (sacou o trocadilho :P?) e tantas outras soluções idealizadas pelos geniais cérebros espalhados mundo afora.

As pizzarias buscariam melhorar a imagem, criar sotisficadas propagandas e processar tudo e todos. Alguns jovens, repletos de problemas (como ninguém se importar para com eles, pais por demais ocupados etc etc etc) iam tentar obter atenção comendo pizzas adoidados para assim sentirem-se notados.

Pessoas viciadas iriam poder usar o vício como desculpa por atos falhos, para lograr o perdão dos outros e de si mesmo(a consciência é o pior dos juízes para se ter em um tribunal pessoal) . Seria até um pouco conveniente, a vida é ruim, uma mordida então para pelo menos aliviar os problemas, afinal, endorfina é a solução. Quando os problemas causados por uso exagerado de garfadas viessem à tona, então a vida se tornaria pior (afinal, obesos eram padrão de beleza de um passado tão tão distante e o marcante do Século XXI é o senso de estética e doenças cardiovasculares) e como resultado, assim como Mickey e Pluto, problemas viriam acompanhados de mais garfadas.

Felicidade é saber que sempre há o lado bom da vida, o mundo seria tão melhor para tanta gente com víciados em pizza assumidos. O leite das crianças dos cirurgiões plásticos não iria faltar, lipos seriam para os adultos como a Viagem para Disney é para os jovens. Publicitários também viriam a ganhar seus trocos a mais com propagandas bem boladas (ou apelativas) para pizzarias. Modelos em seus corpos super sensuais e inalcansáveis para viciados apareceriam nessas novas propagandas, faturando também um pouco desse filão. A televisão teria assunto para falar pois todo motivo de infelicidade para alguém sempre gera notícia (quantas semanas não tivemos de reportagens sensasionalistas sobre o caso do rapaz que sequestrou a ex-namorada e a matou). As editoras iriam faturar com livros e revistas sobre o assunto. Pesquisadores faturariam com pesquisas encomendadas por pizzarias buscando uma melhora em suas imagens. Donos de restaurantes de massas perderiam um pouco a clientela mas ganhariam uma nova com covardes suicidas que ao ouvirem todos os males gerados pela pizza iam aos poucos se matando, com prazer claro. Hospitais teriam muitas cirurgias para realizar desentupindo artérias e obtendo assim mais recursos. Advogados trabalhariam em casos de viciados X pizzaiolos, pizzarias X mídia. E até mesmo os viciados viriam a usufruir pois estes teriam prazer proporcionado pela massinha, mesmo que trocando por sua saúde (aprendi que existe uma lei bem simples regindo o universo: para se obter algo, sacrifique outra coisa). Quem sai prejudicado? Pense e reflita pois cansei de escrever hauah

Nossa, como pizza tornou-se tão desagradável? Ou melhor dizendo, como transformei pizza em desculpa para falar sobre os vícios e lucros? Sim, pois certamente apesar de extremamente saborosa, acredito ser díficil possuir um vício de pizza, já que acima de tudo, é um alimento pesado que dificulta a ingestão. Engraçado que se trocar todos os termos envolvendo pizza por termos relacionados a cigarros, bebidas, -coloque aqui qualquer outro vício que você conheça- a situação transforma-se em familiar. Vou saborear hoje a noite uma pizza de calabresa extremamente apetitosa sem o menor receio :P.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Primeiro Ato: Molière e a arte da comédia

Uma criança e seu pai tinham muito em comum. Não apenas fisicamente, mas também em modos, passavam a impressão de a genética ser realmente eficiente e parcial. Sua mãe, cujo amor movia montanhas, possuía uma personalidade contrastante. Ela, extrovertida e aventureira. Pai, simpático (não era introvertido mas tampouco era extrovertido) e calmo.

Passados alguns anos, a criança tornou-se aborresc...adolescente. A semelhança física com o pai manteve-se. Demasiadas vezes ao atender o telefone, era confundido com o pai. Curiosimente, sua personalidade também mudou (obviamente era outra pessoa agora, afinal, amadurecer faz parte de crescer... ou não :P), mas diferentemente do que ele mesmo pensava, se distanciou da personalidade calma de seu pai e sem sequer perceber, estava muito mais semelhante à mãe do que outrora. E seu pai, curiosamente também mudou, e talvez nem mesmo tenha percebido, tornando -se um pouco mais parecido com a mãe de seus filhos. Um exemplo disso, é seu gosto por comédias.

O pai e o filho, nunca foram muito fãs de comédia. Eram em seu cerne bobas demais para o intelecto (o pai, por saudosismo, ainda adorava as antigas séries de comédia que tomaram parte de sua infância, mas apenas essa excessão). De alguma forma, na concepção deles, inteligência teria sempre de estar ligada a algo sério, sendo a comédia então trivial e que não recompensava o tempo despendido.

O filho por curiosidade (e total falta do que fazer), em uma determinada época, assistiu todos os pilotos (primeiros episódios que testam a audiência) das novas séries televisivas em busca de algo interessante. De repente é surpreendido por uma série extremamente nerd, com um plot mongolóide e clichê mas que por acaso do destino e da competência, tornou-se um passatempo assaz agradável e conseguiu o que Friends, a famosa comédia que todos adoram, não conseguiu: fez o filho assistir junto com o pai uma comédia sem um dos dois sair no meio. O nome da comédia? The Big Bang Theory.

Perder o preconceito contra comédias e se divertir com algumas foi um feito incrível, mas considerar uma comédia algo genial já era exigir muito. Molière então, desafiador e genial na vida e na morte, apareceu e mudou tudo novamente.

Meio abrupta essa aparição do Molière não é? Talvez você até mesmo tenha pensado que Molière era a criança no inicio da história. Na moda de Lost, vamos dar um pequeno flashback dentro do flashback (se perdeu? Era a intenção, deixe fluir e apenas absorva as informações que no final tudo se encaixa).

No meio de tanta besteira cinematográfica e milionária, o cinema europeu ainda mantém seu charme perante Hollywood (parece que os americanos agora só sabem fazer séries). No meio do ano, o adolescente assistiu um filme que contava a história de um diretor/escritor/ator de teatro falido na Europa renascentista que após ser preso, consegue ser libertado por seu talento e é sustentado por um mecena (não sabe o que é? Vá estudar!). O filme é baseado na história do já famigerado (pelo menos nesses 3 últimos parágrafos) Molière e é interessante, engraçado e meu deus, inteligente!

Qual a surpresa então desse pobre rapaz, perdido em suas convicções, atordoado pelas mudanças de suas perspectivas (ahá, tinha que citar o nome do blog indiretamente) quando as salvadoras coleções de pocket books - com seus preços na medida para pobres estudantes sem mesada - possuíam em seu catálogo alguns livros do Mo.... (se eu repetir de novo o nome dele, dariam 0 em uma redação, ainda bem que estamos na internet). De assalto, o livro "As Eruditas" (do original Les femmes savantes) é comprado e lido rapidamente pelo apressado e curioso garoto.

E no final, será que as expectativas foram cumpridas ou até mesmo superadas? Ou a desilusão irá novamente bater a porta de Manuel José? Maria Joaquina estaria mesmo grávida? Continua no próximo episódio....




Brincadeira, é que curiosamente esse post ficou maior do que jamais eu poderia sonhar (sou um blogger tagarela O.O).

Bem, não é preciso muito para ter sacado que o garoto era eu. E agora, falando e colocando minha integridade em risco, comédia pode sim ser genial. A peça é incrivelmente interessante, com seus diálogos rápidos e afiados, engraçada e crítica. Inclusive, uma citação que ecoou em minha cabeça durante toda a leitura é: (o original não é assim mas não lembro como era exatamente) aquele que muito lê e se gaba por isso tem pouco tempo para pensar e ter suas próprias idéias.

Destaco também a tradução do Millôr.


E chega de escrever, acabou a tinta da caneta.

Prólogo

Dias atrás em uma conversa, uma conhecida falou possuir um diário. Um diário! Primeira vez que alguém disse ter um para minha pessoa. Uma explicação se fazia necessária e o motivo me surpreendeu, pois eu pensava erroneamente - com um certo preconceito - que diários tinham apenas como ofício servirem de amigos imaginários, incapazes de quebrar a confiança e decepcionar os corações (nunca entendi o fato do coração ser ligado aos sentimentos, mas por falta de melhor vocábulo, vai esse mesmo) mais frágeis. O motivo dito por ela era que ao reler, lembrava dos bons fatos que também ocorreram e usualmente são deixados de lado por algum defeito de fabricação no ser humano, pois este tende sempre a dar mais atenção a tudo que lhe desagrada.

Finalizada a conversa, clickado no sign out do msn, refleti sobre o tal diário e pensei: Por que não escrever minhas idéias, pensamentos e talvez alguns fatos (mas acredito jamais escrever algum fato sem estar antevindo ou exemplificando alguma reflexão) para no futuro ter um fácil acesso a eles?
Costumo ser fuzilado por toneladas de idéias e pensamentos que surgem de algum canto. Tento na medida do possível manter todos salvos e intactos para futuro uso (provavelmente por esse esforço, tenho tanta dificuldade de memorizar números de telefone :P).

Baseado nisso, resolvi criar esse blog - pois mesmo que ninguém venha a ler, é chato demais escrever algo sem pensar em um público, e talvez algum dia, ele possuir um comentário e eu poder absorver uma opinião diferente da do meu grande umbigo - que em breve também deverá ser um recanto para eu postar algumas imagens (além da minha galeria na deviantart: http://reborn07.deviantart.com/gallery) e poder comentar mais a fundo sobre o processo de criação e temática.

Agora que já foi dito o motivo - contrariando o meu senso de que é sempre mais interessante ser dito as motivações no desenrolar da história do que no começo - nada mais impede o começo de posts sobre tudo, e nada também, afinal, a internet é livre.