segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Terceiro Ato: Apenas seja você mesmo!

Essa é uma curiosa expressão: "Seja você mesmo!". Quando se pede conselhos, é muito usual obtê-la como resposta. Admito que mesmo não compreendendo seu significado, já cheguei a usá-la quando procurado e também já a ouvi quando buscava ajuda. É dificil saber o que sou "eu"... Quero dizer, partindo do início, agora sou o mesmo do que cheguei a ser anteriormente? Pois "ser eu mesmo" em minha concepção implicaria na necessidade de se possuir uma personalidade fixa e imutável, o que como procuro provar abaixo, não concordo.

A sociedade é capaz de alterar o indivíduo. Pensamentos, idéias, preferências e porque não a conduta são alterados pela ação de viver em conjunto com outros. Os agentes que podem vir a influenciar são os acontecimentos marcantes, as trocas de idéias, etc.

Segundo Locke, ao nascer o homem seria como uma "Tábula Rasa", uma folha em branco que aos poucos viria a ser preenchida em contato com o mundo exterior. Por essa teoria pode-se entender então de que mantivendo um contato com a sociedade, a pessoa estaria propícia à mudanças. Há não ser que consideremos a idéia da folha em branco ser completamente preenchida e saturada em um dado momento, impossibilitando a absorção de novas idéias.

A existência dessa satura entretanto não viria a ocorrer pois a todo momento estamos reciclando nossos pensamentos - seguindo a metáfora do papel - apagando e escrevendo outros. Pode-se também incluir na argumentação a idéia de que se a personalidade atingisse um estágio em que fosse impráticavel alguma alteração, perderíamos parte de nossa capacidade de adaptação e consequentemente, de sobrevivência em situações adversas. Digamos que um senhor, com posses, possua uma personalidade egoísta. Perdendo sua fortuna por um desastre, esse comportamento egoísta talvez tivesse de ser atenuado ou até mesmo extinguido para sobreviver, pois imaginemos que um determinado grupo de indivíduos nesse caso possuam alimentos, mas compartilhem apenas com pessoas de dentro e a lei vingente é compartilhar com todos o que tiver (podemos considerar esse grupo como uma sociedade então pois teriam leis a serem cumpridas e uma organização imposta). O senhor, faminto, aceitaria de certo e assim viveria uma vida não egoista, talvez ainda com desejos, mas incapaz de agir como antes do desestre.

Essa história cria a possibilidade de argumentar que os comportamentos podem ser mudados, mas não a personalidade, que manteria-se no desejo. Entretando ao mudar nossos modos por um período tão longo, o que viria a definir a personalidade então? Os desejos que viríamos a ter? O que seria então a real personalidade? Partindo do pressuposto que todos em algum momento já possuíram o desejo de realizar um ato obscuro, desejo perfeitamente humano, então o tal ato obscuro que todos possuíram seria a nossa personalidade se essa argumentação viesse a ser verdadeira, fazendo assim me levar a crer que ela é imprecisa.

Thomas Hobbes dizia que a sociedade era necessária para garantir a liberdade, pois sem suas leis, os homens viveriam em constante guerra. Ele usou essa teoria para defender o absolutismo, mas ainda assim ela é válida ao meu ver para qualquer tipo de Estado unificado, não importando a organização política. Na história contada, o grupo serviria como a sociedade para evitar que o homem cedesse aos seus desejos obscuros ou, caso contrariando meu ponto de vista, sua real personalidade.

Curiosamente eu concordo tanto com Hobbes quanto Locke nesses dois pontos em que destaquei (não pense que eu concordo com tudo dito em suas obras) o que pode ser visto como um aparente paradoxo. Acreditando que os homens sem a sociedade digladiariam entre si e ao mesmo tempo dizendo que sem contato com outro, o indivíduo seria uma folha em branco, então por que sem um contato em sociedade, eles haveriam de se confrontar?

Para essa pergunta, penso eu que deve-se considerar apenas o superego (parte do inconsciente que Freud atribuiu aos pensamentos morais e éticos) do indivíduo recém-nascido como uma tábula rasa. Ao nascer, acredito que o ID - parte relacionada ao desejo sexual e a luta pela sobrevivência, resumindo, nosso instinto - diferentemente do superego, não seria uma folha em branco. A sociedade viria então a atenuar o ID "preenchendo" o superego ou podendo ocorrer o inverso, aumentando a influência do ID.

Outro motivo pelo qual não consigo entender o "ser você mesmo" é o fato de existir mudanças súbitas de humor ou preferências. Certos dias eu adoro jogar ping-pong, em outros não dou a menor atenção. Supondo que eu venha a ser uma pessoa bem-humorada, mas ao acordar ou por determinada situação (seguindo o conceito anteriormente dito da sociedade influenciar o indivíduo), esteja de mau humor. Ser eu mesmo então implicaria a agir como usualmente sou, uma pessoa bem humorada, ou agir naturalmente, nesse caso, mal humorado? E não me venham com "é sempre bom ser bem humorado com as pessoas" pois este foi apenas um exemplo :P

Pode também ser motivo para eu não ter conseguido entender a expressão, o fato de ainda ser jovem. Isso claro, considerando um pensamento que contrarie o de Locke (se é pra refletir, que seja pensando todos os caminhos possíveis, incluindo os que não concordo). Se a personalidade é então realmente algo fixo e definido, o meu "eu" deve então ainda estar escondido e pelo pouco tempo que tive para entendê-lo, houve essa confusão.

Kevin Arnold, protagonista de um de meus seriados favoritos, Anos Incríveis, no final de um episódio disse uma das melhores definições que já ouvi sobre o significado de crescer: "Quando somos crianças, somos um pouco de cada coisa. Artista, cientista, atleta, erudito. Às vezes parece que crescer é desistir destas coisas, uma a uma. Todos nos arrependemos por coisas das quais desistimos. Algo de que sentimos falta. De que desistimos por sermos muito preguiçosos, ou por não conseguirmos nos sobressair, ou por termos medo." Simplesmente fenomenal.

Deve ser o fato de estar crescendo que me faz refletir sobre isso, sobre mim mesmo. A idéia de ter de começar a escolher a qual caminho vou trilhar em meu futuro. O fato de não estar certo de quem quero ser, ou mais difícil ainda de admitir, de quem realmente sou. Um dia sou tímido, outro ajo como sem-vergonha. Um dia só penso em besteiras, em outro só penso em assuntos sérios. Um dia gosto de companhia, outro busco ficar só. Um dia quis ser cineasta, já outro hacker. Personalidade é o conjunto de características psicológicas que distingue cada indivíduo. Pensar que nossa personalidade é imutável, de sermos quem somos pelo resto de nossas vidas é algo que me assusta e felizmente considero irracional, graças aos argumentos acima levantados. Ter um "eu mesmo" ocasionaria perder o sentido de sonhar em ser uma pessoa melhor a cada dia.

O intuito desse blog é gravar meus pensamentos para posteriormente, caso eu deseje, poder reavaliar ou lembrar do que havia esquecido. Estava com esse pensamento o dia todo na cabeça (e até mesmo por meses insconscientemente, pois esse foi um ano de decisões) e decidi então postar e refletir sobre isso. Não sou estudante de psicologia ou filosofia nem sei muito acerca do tema, mas tento na medida do possível, ler sobre. Talvez eu tenha falado grandes besteiras, então sinta-se livre para comentar, fazendo-me quem sabe re-avaliar as idéias.

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