sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sexto Ato: O Velho e o Apartamento

O apartamento não é de grande extensão, mas vive-se confortavelmente. Os cômodos são ligados por um estreito corredor e no lado oposto ao quarto em que estou, encontra-se a sala. Ela ocupa maior parte do imóvel. Meus almoços e minhas jantas são lá, em uma mesa de madeira, com quatro grandes cadeiras, sem nenhum acolchoado. Meus olhos fitam na janela o prédio vizinho enquanto ceio. Ele encontra-se muito próximo, quase como uma continuação da construção, um prédio gêmeo diria eu. E lá, também existe uma janela gêmea à minha.

Nessa janela, encontra-se um velho. Como uma presa se escondendo de seu predador, ele permanece imóvel por horas, com esporádicos movimentos de seus fios de cabelo ou tiques nervosos. Sua cabeça está sempre abaixada. Jamais pude contemplar seus olhos. Sempre alguém está ao seu lado, mas nem sempre é a mesma pessoa. Dia é uma senhora (acredito que seja sua esposa ou irmã) que sempre está a assistir tv, outro é uma negra, rechonchuda e de aparência jovial, provavelmente uma enfermeira já que nada assemelha-se com o idoso e é nova demais para uma amiga.

O lugar é tão mal iluminado quanto o meu, conquanto acredite eu ser proposital, buscando não lesar a vista do senhor. Possui poucos móveis na sala, apenas um sofá, uma mesinha onde encontra-se a tv e praticamente só. O que realmente me interessa no local entretanto é uma pequena escultura de Cristo crucificado localizada acima da cadeira que o velho repousa. Tanto Jesus quanto o enfermo encontram-se imóveis, com a cabeça abaixada. Não sei se é minha veia artística, mas essa simples semelhança parece-me tão profunda e correlacionada que chega a me cativar, como poesia (apesar de considerar a maioria intragável, algumas são espetaculares).

Tenho a sensação do tempo estar parado naquele lar pois tudo é estático. A unica mudança que ocorre é a luz que incide na senhora quando assiste sua novela. Dado momento é fraca, logo aumenta, e nesse jogo de claro-escuro, a velha permanece. É como observar um quadro de um grande gênio. A lâmpada fraca, Jesus e o velho, a velha e a luz. Cada detalhe é bem aproveitado para emocionar à quem olha.

Faz o quê? Uns 5 anos desde que me mudei? Não sei ao certo, mas lembro claramento que desde o primeiro momento, lá jazia o velho em seu trono. Eu cresci, vivenciei momentos, experimentei novas emoções e nada mudou naquele apartamento. Como um fantasma da guarda, lá ainda está ele, avisando-me do quanto devo aproveitar o tempo em que posso construir com meus próprios braços e visitar com minhas próprias pernas. E como mau aluno que sou, sempre contrariando o professor, não absorvi toda a lição. Infelizmente todo o mundo também ainda não aprendeu, alguns por falta de tal mestre, continuam a desperdiçar o tempo com preocupações e conflitos tolos. Logo será ano novo e quem sabe a aula não termina? O mundo precisa de paz.

p.s.: o nome desse ato é inspirado no livro "O Velho e o Mar". Falando a verdade, nunca cheguei a lê-lo, mas ouvi a ótima música "The Old Man and The Sea" do grupo Anekdoten, baseada no livro. Um dia pretendo ler. Quando terminar os quatro livros que estou lendo no momento, quem sabe hehe...

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