terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Nono Ato: Faça chuva, faça sol...

O tempo está imprevisível. Ontem, por exemplo, acordei devido à claridade de um forte sol em um céu sem nuvens. Saí para almoçar e durante o percurso, a chuva apareceu. Findo almoço, saí em uma quente rua, sem sinal de chuva. Em casa, o sol continuou. Deixei entretanto o conforto de um apartamento e, novamente, desprevinido fiquei perante um dilúvio. Um ônibus passou, restou-me entrar nele. A chuva seguiu. No fim de um túnel, milagrosamente o sol apareceu e o termômetro marcou trinta e cinco graus. Difícil se programar em dias assim.

Nesse intervalo, o tempo mudou, mas algo permaneceu imutável, quiçá ainda mais destacável, visto o vazio nas ruas. Os jovens, os velhos, os bebês. Todos na rua, sem lugar algum para estar se não no chão. Quente estava, imagino o ardente asfalto em seus pobres corpos, já maculados pela fome. Depois resistiam ainda ao choque térmico proveniente dos frios gotejos de uma rápida e forte chuva. Prisioneiros de uma guerra fria entre as classes.

Pergunto-me qual o motivo da prefeitura ter um grande estacionamento particular que jamais vi ter metade de sua área preenchida. Para não falar da capela presente e isso para não entrar nos pormenores dos feriados católicos que são oficializados em nosso calendário. Pois sim, aparentemente apenas na constituição somos um Estado laico. Tanto espaço desperdiçado com futilidades.

Engraçado como sou parcial. Faço parte da classe média que nunca reclama de seus próprios atos, sempre aponta falhas alheias. Nesse caso, do Estado. Podia reclamar de meu prédio possuir um largo play que sequer é utilizado por ser composto apenas de concreto e mais concreto. Mas não o fiz. Questionei o Estado e sua relaçao para com a Igreja. Não existe imparcialidade.

E, de fato, provavelmente sequer farei algo para mudanças ocorrerem - as famosas "changes" de obama-, apenas continuarei seguindo minha vida, cumprindo as leis. O que não deixa de ser um ato significativo para uma melhora pois poderia muito bem estar tentando erguer um castelo de 36 suítes.

Não escrevi para exibir as injustiças das ruas. Elas não são teatros que necessitem de alguém para abrir suas cortinas. Nem para fabricar filantrópicos que saiam doando por aí. Escrevi porque talvez tenha ocorrido um problema em minha concepção. Nasci com um defeito. Onde supostamente estariam olhos meus, encontram-se bocas. Com elas absorvo tudo o que observo. O sabor nem sempre é agradável e permanece em minha memória. Fica dias. Às vezes preciso expurgar. Por isso esse texto.

2 comentários:

Bianca Mól disse...

caramba, cesar. acho que esse foi o seu melhor texto, na minha opinião.
simplesmente genial. =] adorei a escolha das palavras..os detalhes...parabéns.
beijo!

(e não me esqueça mesmo depois de ter tietes! euheueheuheueh)

ps. essa é minha conta do orkut/gmail etc..nao a do blogger.

Giovana Nunes disse...

Gostei muitíssimo do texto, principalmente doo final. Mas toma cuidado na dosagem dos adjetivos porque senão o seu blog vai ficar parecendo Iracema ;)
Beijos!