segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Quinto Ato: Memória transcrita

Pi Pi Pi... Esse é o som que ecoa em meus pensamentos quando penso no tempo. Realidade diferente da de meus avós, onde pessoas escutavam somente Tic-Tacs. Era a época do analógico, a minha é do 0 e 1. Meu tempo é uma fila de Pi Pi Pis seguidos, alarmes de atraso. Conquanto hoje assim seja, possuo ainda memórias de dias diferentes, quando meu tempo era medido por presentes recebidos e o quanto faltava para ganhar outros. Memórias essas que constituem meu passado, afinal, já dito por Alceu Amoroso Lima: "O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou". Compartilhar-lhe-ei uma delas, datada de 10 anos:

Perguntados acerca do ano de 1998, cariocas de certo acudiriam: Ano de Copa! Pois bem sim era época de Copa do Mundo de Futebol. As cidades estavam coloridas de verde-amarelo. Buzinas eram entoadas em um crescendo como uma orquestra anunciando o clímax da obra. Crianças reproduziam seus ídolos imitando seus penteados, suas comemorações e seus sotaques. Longos dias e noites haviam se passado desde a heróica conquista do tetracampeonato e o povo mal suportava a espera.

Eu estava entre meus seis ou sete anos - perdoai-me pela imprecisão - e residia no lar de meus avós paternos, donde pouco mantia contato com o restante da família, exceto aos finais de semana, quando meu pai vinha me buscar e íamos rumo nossa casa, distante da capital. Nesses sábados e domingos, meu irmão e eu jogávamos futebol. Melhor dizendo, meu irmão humilhava-me em um jogo jogado com os pés. Não pense entretanto, que era um desprazer, pois de fato, era deveras divertido e engraçado ser humilhado nessas brincadeiras.

Meu irmão já havia passado por dez carnavais quando nasci. Tínhamos pouco em comum. Ele era moreno e alto. Eu branquinho e pequeno. Perfilho a tese de que toda a habilidade familiar no futebol fora monopolizada por ele. Com a Copa chegando, a seleção brasileira tinha nós dois de atacantes, em nossos sonhos como atletas convocados, . Romário e Bebeto eram o passado, éramos o presente. Pobres oponentes, um a um caíram perante o poderio brasileiro e uma vez mais, o Brasil alcançara o topo. Em nossas ilusões apenas, pois acredito que vóis sabeis o fatídico resultado.

Essa foi a última Copa em que estivemos juntos. Mal sabia eu de que ele viria a falecer mais tarde. A morte era para mim, como Papai Noel, algo apenas lido em histórias. Agora não mais formamos uma dupla de ataque, sou apenas um atacante cercado de zagueiros. Sou de fato um melhor atacante, consigo marcar meus gols sem sua companhia pois dependo deles para sobreviver, mas isso não atenua o pesar. Sequer recordo dos jogos assistidos ou dos gols comemorados na Copa daquele ano. Em minha memória apenas repousa uma partida de 1998. Uma jogada sem tanta pompa, em um gramado esburacado, com forte sol e céu azul límpido. O Brasil era dois. Eu e ele. Meu uniforme não era o tradicional verde-amarelo, mas sim uma sunga azul. Ele usava uma bermuda preta sem camisa. Não parecíamos ser do mesmo time, entretanto era apenas impressão. O resultado? Brasil 2 x 0 Resto do mundo.

3 comentários:

Anônimo disse...

fica dificil tecermos comentarios sobre dores tao pessoais. nada que eu dizer vai ajudar. abraços.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Querido Guga,
Estou orgulhoso de sua habilidade de escrita e desenvoltura de pensamentos. Este ato, em especial, muito me amocionou.
Você vem crescendo muito rapidamente e sigo sua trilha de perto, agora, aprendendo com você.
Beijos